20 de outubro de 1965.
Hoje acordei com a graúna, vi a noite sumir na saia do dia, bebi leite pertinho da vaca, comi polenta na chapa e fui trabalhar.
Retornei ao meio dia, comi arroz carreteiro com feijão tropeiro e mandioca, brinquei com os cachorros e tirei a sesta ao lado deles nos pelegos sob a sombra da aroeira.
Voltei pra lida, rocei mato e sarei boi até a noitinha. De volta pro rancho, bebi pinga da boa, (só um tantinho), tomei banho no riacho e fui pra escola.
Hoje posso dormir feliz. Escrevi meu nome todinho sem olhar.
Luiz Inácio da Silva – ZÉ.
A professora me elogiou muito.
21 de outubro de 1965.
Hoje acordei cedo, bebi leite pertinho da vaca, comi polenta na chapa e fui trabalhar.
Retornei ao meio dia, comi carne de sol com feijão tropeiro e mandioca, brinquei com os cachorros e tirei a sesta ao lado deles nos pelegos sob a sombra da aroeira.
Voltei pra lida, rocei mato e sarei boi até a noitinha. De volta pro rancho, bebi pinga da boa, (um tantinho mais que ontem), tomei banho no riacho e fui pra escola.
Hoje melhorei mais um pouquinho. Li o Hino Nacional até quase metade, a professora pediu para eu deixar a outra metade para amanhã.
Assim era a vida do Zé. Levantar cedo, trabalhar, comer, beber uma pinga, estudar e dormir, até cansar de tanta coisa pouca e começar a questionar as engrenagens de moer sonhos.
A rotina mudou um pouco, mas continuava a acordar cedo, trabalhar, comer, beber uma boa pinga, estudar menos e falar mais.
Convenceu outros trabalhadores da fazenda a alimentar sonhos e bichos com palavras, muitas palavras. Servidas no escuro, nos muros, nas ruas.
Sonhos, espadas e gritarias cresciam juntos no terreiro da fazenda e o Zé acordava cedo, trabalhava menos, comia menos, tomava banho no riacho, bebia pinga, estudava e dormia pouco.
No diário do Zé está registrado que uns meninos de verde batiam nele pra ele dormir e parar de falar, mas Zé não tinha sono e falava mais alto e já sabia de cor o Hino Nacional com os significados e tudo.
Os donos da fazenda não gostavam do Zé, mas precisavam dele pra se comunicarem com outros Josés, Marias e Pedros e assim o Zé continuou acordando cedo, trabalhando, comendo menos, bebendo pinga e visitando outras fazendas do outro lado do riacho grande e conheceu outros Zés e ficaram amigos.
Conta a lenda, que o Zé era bom homem e chegou a ser capataz da fazenda no começo do século XXI e que os sonhos de Marias, Pedros e Josés, alimentados com palavras, deram frutos e a fazenda nunca mais foi a mesma.
Darci Cunha
sábado, 1 de agosto de 2009
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