segunda-feira, 3 de agosto de 2009

AVISO

Quero distância
das facas que cortam
sinais de lonjura,
das penas que cantam
limites do voo,
dos dedos que apontam
caminhos do outro,
das rezas que calam
gritos da mente,
das cordas que amarram
perfumes do verbo,
dos olhos que lançam
flechas do abismo,
das mãos que devoram
seiva ascendente,
dos braços que abraçam
porções do vazio,
das setas que apontam
fatias do tempo,
anzóis invertidos
que roubam certezas,
dos gestos viciados
que fogem do cio,
dos passos que afastam
surpresas do cais,
do intruso que encobre
caminhos do sol,
do profeta que habita
a borda do cale-se.

sábado, 1 de agosto de 2009

TEMPESTADE DO ADEUS

E o mar com a adultez de seus dentes
E a pressa com os acordes de seus ventos
E o cais com suas leituras de mãos
E o tempo.

E a pedra na germinez de seus seres
E a semente na procissão dos defeitos
E o colo no impensar do profeta
E o tempo.

E o sorriso na infância do som
E a palavra algemada na trilha
E o aceno abatido em seu voo
E o tempo.

E o suborno no abismo das cordas
E a brisa desfazendo castelos
E a solidão crescendo na grama
E o tempo

E depois da tempestade do adeus
O resto é sopro.

AMANTE

...e chega essa paz morena
Na seiva da noite, quente,
desenha desertos na mente
do corpo esquecido na dor.

...e sai levando nas veias
o branco do azul tatuado
cheiro do gozo estampado
nos pelos da alma, suor.

...e deixa no rastro da boca
pegadas do verbo não dito
silêncios do que foi grito
no instante pleno da cor.

...e volta habitar desvazios
nas fendas do precipício,
sem luz, sem jus do seu vicio,
finitos goles do amor.

DIÁRIO DO ZÉ

20 de outubro de 1965.
Hoje acordei com a graúna, vi a noite sumir na saia do dia, bebi leite pertinho da vaca, comi polenta na chapa e fui trabalhar.
Retornei ao meio dia, comi arroz carreteiro com feijão tropeiro e mandioca, brinquei com os cachorros e tirei a sesta ao lado deles nos pelegos sob a sombra da aroeira.
Voltei pra lida, rocei mato e sarei boi até a noitinha. De volta pro rancho, bebi pinga da boa, (só um tantinho), tomei banho no riacho e fui pra escola.
Hoje posso dormir feliz. Escrevi meu nome todinho sem olhar.
Luiz Inácio da Silva – ZÉ.
A professora me elogiou muito.
21 de outubro de 1965.
Hoje acordei cedo, bebi leite pertinho da vaca, comi polenta na chapa e fui trabalhar.
Retornei ao meio dia, comi carne de sol com feijão tropeiro e mandioca, brinquei com os cachorros e tirei a sesta ao lado deles nos pelegos sob a sombra da aroeira.
Voltei pra lida, rocei mato e sarei boi até a noitinha. De volta pro rancho, bebi pinga da boa, (um tantinho mais que ontem), tomei banho no riacho e fui pra escola.
Hoje melhorei mais um pouquinho. Li o Hino Nacional até quase metade, a professora pediu para eu deixar a outra metade para amanhã.
Assim era a vida do Zé. Levantar cedo, trabalhar, comer, beber uma pinga, estudar e dormir, até cansar de tanta coisa pouca e começar a questionar as engrenagens de moer sonhos.
A rotina mudou um pouco, mas continuava a acordar cedo, trabalhar, comer, beber uma boa pinga, estudar menos e falar mais.
Convenceu outros trabalhadores da fazenda a alimentar sonhos e bichos com palavras, muitas palavras. Servidas no escuro, nos muros, nas ruas.
Sonhos, espadas e gritarias cresciam juntos no terreiro da fazenda e o Zé acordava cedo, trabalhava menos, comia menos, tomava banho no riacho, bebia pinga, estudava e dormia pouco.
No diário do Zé está registrado que uns meninos de verde batiam nele pra ele dormir e parar de falar, mas Zé não tinha sono e falava mais alto e já sabia de cor o Hino Nacional com os significados e tudo.
Os donos da fazenda não gostavam do Zé, mas precisavam dele pra se comunicarem com outros Josés, Marias e Pedros e assim o Zé continuou acordando cedo, trabalhando, comendo menos, bebendo pinga e visitando outras fazendas do outro lado do riacho grande e conheceu outros Zés e ficaram amigos.
Conta a lenda, que o Zé era bom homem e chegou a ser capataz da fazenda no começo do século XXI e que os sonhos de Marias, Pedros e Josés, alimentados com palavras, deram frutos e a fazenda nunca mais foi a mesma.


Darci Cunha

Vinte e dois de Março de 2056

Quando vi já era tarde.
Um sofregão, um grito e lá estava eu. Algo em torno de 18cm além do aconchego costumeiro.
Éramos milhares. Alguns definharam na preguiça, outros não estavam preparados.
Confesso que empurrei alguns para o ralo, pisei na cabeça, enfim... Eu gostei daquela bolinha. Tentadora... Vibrante...
Quando vi, já era. Fui engolido, despedaçado. Loucura total. Contemplava-me nas metades. Tal qual... Não estava mais só.
Que sono lindo e longo! Mas quando vi... Alias, nem vi! Fui expulso como um simples caroço de fruta. Cortaram o galho do balanço. Agora é respirar ou morrer. Respirei o primeiro poema... Gritado. Mas guardei o eco. Minha garganta foi se fazendo corredor de contação.
Quando vi já era cedo, caminhava, cantava, amava e enlouquecia de amores pelas coisas, bichos, conceitos, sementes e poemas que germinavam perto do fogareiro de sonhos e cresciam. Belos.
Quando vi... Nem sei se vi tudo que deveria, mas quando eu quase chorava ferido pelos espinhos que se espalhavam no rastro do comboio de invernias, só e sem meu balanço de catar aragens, acordei e fui pego pela mão e aí...
Bem! Aí chega você e me diz que já se passaram cem anos e que eu estou vivo e me faz perceber que precisamos sempre remexer o palheiro-vida em busca da felicidade-agulha e que nunca será tarde.